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Neil Gaiman e Renata Pettengill

Entrevista com Renata Pettengill

Entrevista feita por Felipe Goulart e Vagner Abreu (via e-mail)

Olá leitores!

Alguns dias antes do lançamento do livro O Oceano no Fim do Caminho, postamos aqui a notícia de que o Brasil seria o único país no Mundo a lançar a versão traduzida junto com a original. Achei isso excelente, mostrando ao resto do Mundo, que os leitores brasileiros também são muito importantes para o crescimento da literatura mundial.

Então, entrei em contato com Renata Pettengill, tradutora do novo livro do mestre Gaiman, enviei um e-mail para ela com algumas perguntas, que acho que todo fã gostaria de saber.

Uma coisa curiosa, foi que nesse meio tempo, entre eu enviar o e-mail e ela responder… Ela conheceu Neil Gaiman pessoalmente! Fiquei muito feliz com isso! Deve ter sido muito bacana conhecer o pai dos sonhos. 

Renata e Neil GaimanConfesso que após ver essa foto, senti muita inveja, ahahahha. Mas, ao mesmo tempo fiquei muito feliz, pois além dela ser tradutora do livro, ela é fã também.

Com vocês, a entrevista:

1) Renata, primeiramente, gostaria que você se apresentasse aos leitores do site e contasse um pouco da sua carreira, da sua formação, até a tradução de “O Oceano no Fim do Caminho”.

Resposta: Olá! Meu nome é Renata Pettengill e comecei a trabalhar com livros em 1990, quando fui contratada pela Editora Record como revisora de textos, estando ainda no terceiro período de Letras (Português-Literatura) da UERJ. Em 1995, fui promovida a assistente editorial, quando cursava Jornalismo na UFF, e em 1998 recebi uma proposta do Reader’s Digest Brasil para assumir o cargo de editora de livros, quando cursava a Pós-Graduação Latu Sensu em Tradução Inglês-Português na PUC-RJ. De lá para cá, além de cumprir as oito horas de trabalho diárias no Reader’s Digest como editora, fiz vários freelas de revisão, copidesque e tradução, além de dar aula por dois anos como Professora Substituta no curso de Produção Editorial da Faculdade de Comunicação Social da UFRJ, e um ano como Professora Titular do curso de Pós-Graduação Latu Sensu de Tradução Inglês-Português da UGF-RJ (tudo isso nas minhas horas vagas, nas minhas noites, nos meus fins de semana…). Ah, além disso, escrevi e tive a sorte de ter publicados alguns livros infanto-juvenis (incluindo uma coleção de 30 livrinhos que foi ilustrada pelo Maurício de Sousa chamada “Turma da Mônica de A a Z”). Agora, em 2013, depois desse tempo todo lidando principalmente com livros, fui promovida a coordenadora editorial da Revista Seleções (poucos meses depois de ter terminado de traduzir “O Oceano no Fim do Caminho”).

2) Você já conhecia Neil Gaiman antes de traduzir sua obra? Já traduziu algum outro livro dele? E já leu algum outro livro dele?

Resposta: Sim, eu já conhecia o trabalho do Gaiman antes de traduzir o “O Oceano no Fim do Caminho”, mas nunca havia traduzido um livro dele. A primeira coisa que li do Gaiman foi “Sandman”, no que parece ter sido há um século, mas na verdade foi em 2005, quando comprei o “Terra dos Sonhos” da Conrad (ele “me pegou de jeito” durante a leitura de “Calíope”). Daí para a frente fui comprando e lendo tudo o que encontrava dele, em livrarias aqui e lá fora, tanto de ficção adulta quanto infanto-juvenil.

 

3) Como esse livro chegou até você, para que pudesse traduzi-lo?

Resposta: Em 2010, eu havia comprado para os meus filhos a edição brasileira de “Os lobos dentro das paredes”. Certa noite, ao ler o livro para meu mais novo na hora de dormir, comecei a perceber que uma frase ou outra não correspondia exatamente ao que eu me lembrava de ter visto quando li o original. Peguei a edição em inglês, comparei, e confirmei que havia algumas imprecisões no português, o que me deu pena. Comentei no Twitter que o livro era muito bom, mas que ler o original, nesse caso, era uma vantagem. O Gaiman perguntou por quê. Respondi, dei exemplos, e me comprometi a mandar uma lista de correções para a editora. Depois disso, pensei: “O próximo livro do Gaiman quem vai traduzir sou eu.” No segundo semestre de 2012, vi no Facebook a notícia de que a Intrínseca (para quem eu tinha acabado de começar a traduzir o “Um Herói para WondLa”, de Tony DiTerlizzi, imediatamente após ter terminado a tradução de “O Teorema Katherine”, do John Green) tinha comprado os direitos de publicação do novo livro do Gaiman no Brasil. Na mesma hora mandei uma mensagem para a editora dizendo que gostaria de traduzi-lo, e consegui o que queria! Ou seja, o livro não “chegou a mim”… Eu fui atrás dele!  🙂

4) Você teve problemas com palavras que não possuem tradução para o português? Isso aconteceu muitas vezes?

Resposta: O livro exigiu muita pesquisa, mas foi tranquilo de traduzir. A parte que me deu mais trabalho foi fazer a tradução dos trechos de “A canção do pesadelo”, da ópera Iolanthe (de Gilbert & Sullivan). Primeiro eu procurei saber se já havia uma versão em português dessa ópera, mas não havia. Sendo assim, comprei o DVD da ópera, vi tudo para “pegar o espírito” (e também porque eu adoro ópera, e essa é espetacular), e fiz a tradução livre. Depois adaptei o que foi necessário para que a letra coubesse na métrica da melodia original, e tivesse o mesmo esquema de rimas. Adorei esse processo e fiquei muito feliz com o resultado.

 

5) Você fala outras línguas, além de português e inglês? Se “sim”, quais são? Já traduziu algo em outra língua?

Resposta: A única língua estrangeira na qual tenho fluência é o inglês. Fiz cursos de francês, espanhol e alemão, e tenho familiaridade com elas, mas só o suficiente para conseguir ler alguma coisa e não me perder na rua quando visito países em que se falam essas línguas.  🙂

6) Você já leu outros livros do Neil Gaiman? Se “sim”, qual o seu favorito?

Resposta: Li a maioria, e gosto muito de todos, mas tenho um carinho especial por “Neverwhere”, pois tenho paixão por Londres e fiquei fascinada pela “viagem” que é London Below. A prosa dele é maravilhosa.

 

7) Neil Gaiman possui um jeito “particular” de escrever, que você tenha notado?

Resposta: O estilo do Gaiman em “Oceano” se diferencia um pouco das obras de ficção adulta anteriores dele porque em “Oceano” o tom é bastante nostálgico, um tanto reflexivo, poético até. O que é natural pelo tipo de livro que é: uma ficção inspirada num acontecimento ocorrido na Harwoods Lane, em East Grinstead, a rua em que ele morou quando tinha 7 anos, e que foi escrita especialmente para sua mulher, Amanda Palmer, que, como ele disse em algumas entrevistas, “não gosta muito de fantasia, mas gosta muito de mim”. É um livro bem pessoal.

8) Ele utiliza muitos termos e/ou frases regionais?

Resposta: As falas das Hempstock reproduzem o jeito de falar do povo do interior de Sussex da década de 1960, e ficam mais carregadas, mais “caipiras”, conforme elas enfrentam os perigos que surgem no decorrer da história.

9) Você poderia fazer uma breve sinopse do livro de acordo com seu ponto de vista?

Resposta: Não quero adiantar nada que vá estragar a surpresa para quem não leu o livro ainda, então vou fazer uma sinopse apenas do prólogo: Um homem de meia-idade volta à cidade no interior de Sussex na qual morou quando criança para o funeral de alguém da família. Ao término da cerimônia religiosa, ele entra em seu carro e dirige até a rua estreita onde ficava sua casa. Ao encontrar uma nova no lugar da antiga, ele decide continuar em frente e vai até o fim da rua, onde encontra a mesma casa de fazenda de tijolos vermelhos na qual moravam as Hempstock, três mulheres que salvaram sua vida quando ele viveu uma aventura dramática e fantástica aos 7 anos. Ele salta do carro e se senta num banco de madeira em frente a um pequeno lago, que Lettie Hempstock dizia ser seu oceano. Lá, ele recorda o que aconteceu nessa aventura. (E compartilha tudo conosco em seus mínimos, e às vezes assustadores, detalhes.)

10) Ao término de “O Oceano no Fim do Caminho”, você gostou do livro?

Resposta: Eu o li todo assim que recebi o arquivo do manuscrito e amei o livro. Ele me fez rir, chorar, e, como não poderia deixar de ser, me deixou aterrorizada em algumas passagens. Foram muitas emoções Comecei a traduzir o livro assim que terminei de ler a última página!

11) Recentemente você conheceu Neil Gaiman pessoalmente. Conte-nos como surgiu essa possibilidade.

Resposta: Quando eu soube que haveria um evento de pré-lançamento em Bath, na Inglaterra, em 14 de junho, no qual ele iria autografar os exemplares com dedicatória para cada pessoa presente no evento, resolvi ir. Comprei a passagem, comprei o ingresso para o evento e, ao chegar ao trabalho, comentei com a minha chefe que tiraria alguns dias de férias em junho para isso. Foi então que ela sugeriu: “Por que você não o entrevista para a revista?” Mandei um e-mail para a Cat Mihos, assistente dele, para acertar os detalhes. Ela encaminhou minha mensagem para a Samantha Eades, que estava cuidando dos eventos na Inglaterra, e a Sam respondeu que ficaria muito feliz em marcar a entrevista. Nós marcamos um horário antes do início do evento, no próprio dia 14, em Bath, e eu conversei com ele nos bastidores. (A entrevista poderá ser lida na edição de julho da Revista Seleções, que deverá chegar às bancas no dia primeiro.)

12) Você pode nos contar como foi tratada por ele?

Resposta: O Gaiman foi muito simpático. Mesmo estando um pouco em cima da hora do início do evento, ele se sentou calmamente para conversar comigo num sofá de dois lugares, enquanto tomava uma xícara de chá, e respondeu a todas as minhas perguntas com total atenção, falando do livro, da carreira, da vida etc.

13) O que você sentiu ao ficar frente a frente com o pai de Sandman?

Resposta: Foi uma emoção muito grande. Eu estava lá como a pessoa da Seleções que iria entrevistá-lo, mas também como a fã que sou há oito anos do trabalho dele, além de como a tradutora do livro para o português. A entrevista correu muito bem e, no fim, nós conversamos um pouco sobre o processo da tradução, e ele me agradeceu por ter compartilhado com ele, via Cat Mihos, alguns detalhes do manuscrito que precisavam de correção, e que ele repassou para os editores originais para serem corrigidos antes da publicação e que eu, nas palavras dele, fui a primeira a identificar. Isso me deixou muito orgulhosa e feliz por ter podido ajudar de alguma forma no processo editorial do original. Para finalizar, tiramos fotos juntos, e enquanto as fotos eram tiradas, ele falou para alguém que nos observava: “Essa é a minha tradutora brasileira!

 

É isso pessoal! Essa foi a entrevista, espero que vocês tenham gostado muito.

Sei que você, leitor, está louco para comprar a edição de julho da Seleções. Bom, já da para você ver uma prévia, clicando aqui.

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E, Renata! Muito obrigado pela entrevista! 😀

Sobre Felipe Goulart

Administrador do site e página no Facebook Neil Gaiman Brasil.

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