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Fábulas, fumaça e espelhos – o pacto entre Sandman e Shakespeare

Postado Originalmente em Sobre Livros por Cláudio Diniz

Texto adaptado por Cláudio Diniz

“(…) no hay rostro que no esté por desdibujarse como el rostro de um sueño.”

(Jorge Luis Borges. El inmortal. In: El Aleph. 1949.)

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Olá leitor! O mundo literário foi sacudido, em 1991, quando Neil Gaiman conquistou o importante prêmio World Fantasy Award de melhor história curta. Tal sucesso foi alcançado após a publicação de Sandman: Sonho de uma noite de verão inspirado na peça homônima de William Shakespeare. Foi a primeira e única vez em que uma HQ conquistou essa honraria. Foi tamanho o impacto que, já no ano seguinte, as regras do concurso foram alteradas para que isso não mais ocorresse. Essa foi uma das muitas premiações angariadas pela série da DC comics. E, sem dúvida, a mais saborosa.

Em Sandman, Lorde Sonho e Willliam Shakespeare encontraram-se pelo menos três vezes. Em 1589 (Sandman. nº 14), no terceiro encontro com Hob Gadling, Morfeus ouve o jovem Will confirmar ao mestre, Kit Marlowe, que faria qualquer coisa para ser escritor. Morfeus se apressa a oferecer a Shakespeare a eternidade em troca de duas peças de teatro. Da segunda vez que se veem, quatro anos mais tarde (Sandman. nº 19), a companhia de teatro de William Shakespeare apresenta Sonho de uma noite de verão (1594/1596) para Lorde Moldador (outro dos inumeráveis nomes de Sandman) e a corte da Arcádia. Era uma promessa de eternizar a memória de Oberon, Titânia e do povo das fadas no mundo ao qual já não pertenciam. Em 1616 (Sandman. nº 75), ano da morte de master Shakespeare, Morfeus recebe A tempestade (1610/1611) como pagamento final pela barganha. A estória de um naufrágio, de uma ilha e de um amor subentendia a própria estória do melancólico rei do Sonhar. Enfim, com essa peça, Fausto pagava o que devia a seu Mefistófeles

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As HQs sempre carregaram o estigma de “arte menor” por serem consumidas pela massa “menos intelectualizada”. Neil Gaiman tem o mérito de enfrentar a tensão entre “alta” e “baixa” cultura ao convidar Shakespeare para esse universo. É bom lembrar que essa mesma tensão pode ser observada nas abordagens tradicionais sobre a obra do dramaturgo inglês. William Shakespeare, ele próprio oriundo das camadas populares, escreveu peças onde esses grupos estiveram representados. Sonhos de uma noite de verão, inclusive.

As tópicas principais dos estudos sobre o texto shakespeariano são trabalhadas por Gaiman de modo genial. A questão da autenticidade ou das lacunas biográficas, por exemplo, encontram resolução simples e inesperada. Isto é, aumentando o mistério sobre elas ao invés de diminuí-lo. Percebemos que o problema da originalidade recebe tratamento quase autobiográfico quando nos damos conta de que Shakespespeare e Gaiman são brilhantes adaptadores. Ambos usam e abusam de muitas outras narrativas para a composição de suas obras.

Tudo isso nos conduz a uma última observação. William Shakespeare produziu sua obra pouco tempo antes da famosa Querela dos modernos contra os antigos. Esse movimento “modernizador” francês, iniciado em 1687, caracterizou-se pelo abandono dos autores antigos em favor de novas concepções teóricas, metodológicas, científicas e literárias. Contudo, a obra de Neil Gaiman caracteriza-se pela busca incessante da antiguidade. Morfeus é a representação dessa busca pelo passado. Mas o abandono dos antigos pelos modernos, no século XVII, tornou-se uma obsessão pelos antigos no fim do século XX. O texto de Shakespeare, relido na obra de Gaiman, demonstra a sobrevivência dessa tradição. As obras de Shakespeare e Gaiman evidenciam que não há nada de novo sob o céu que não possa ser vasculhado e adaptado.

Finalmente, podemos entender que a intertextualidade nas obras de Shakespeare e Gaiman decorre da perspicácia narrativa de cada um deles. É quando percebemos que as obras se misturam e, até mesmo, parecem se completar. A evocação da tradição literária ocidental por Neil Gaiman materializa-se na figura de Morfeus. Com a releitura de Shakespeare, é a tradição literária inglesa que Gaiman resolve assumir e adaptar. Todo texto, para lembrar Bakhtin, é a absorção e transformação de outros textos. O artifício literário da narrativa de Neil Gaiman colocou-o nessa posição de criador e criação.

No conto El inmortal (1949), de Jorge Luis Borges, acompanhamos a busca de um viajante pela cidade dos imortais. Quando ele a encontra, em ruínas, um monstro deformado de nome Argos começa a seguí-lo. Argos, o cão de Ulisses! Eis aqui, leitor, a metáfora borgiana para legitimar a presença das tradições em obras modernas. É o que quisemos demonstrar na leitura especular de Shakespeare em Gaiman. Entre os imortais, cada ato é o eco de outros que o antecederam. Morfeus e Shakespeare despediram-se às margens do Tâmisa. Parece que não disseram adeus.

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Sobre Felipe Goulart

Administrador do site e página no Facebook Neil Gaiman Brasil.

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