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Wesley Dodds, o Sandman que ninguém quer ler

O título na postagem de hoje, na verdade, é uma brincadeira. O Sandman que conhecemos tomou proporções tão grandes em sucesso de público e de crítica, elevando não só Neil Gaiman ao status de um dos maiores escritores de literatura fantástica de todos os tempos, como também colocou o quadrinho adulto, gênero que antes era muito ligado ou rotulado pelos quadrinhos eróticos, em um patamar de visibilidade e aceitação. Fica difícil imaginar que a ideia original para ele tenha vindo de um personagem já existente e trancafiado nos arquivos da DC Comics por seu pequeno impacto junto de outros já conceituados do estúdio.

 

Sandman já existia. Wesley Dodds, criado na Década de Ouro dos Quadrinhos ( anos 30 ) apareceu pela primeira vez na revista Adventure Comics #40, em julho de 1939. Criado por Gardner Fox e desenhado por Bert Crhistman, Dodds era um rapaz da alta sociedade americana que tinha sonhos premonitórios acerca de crimes e corrupção e que passou a combatê-los usando um sobretudo e uma máscara de gas.

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Ele não tinha qualquer super porder e sua ideia original, portanto, o deixaria muto próximo de outro personagem da DC, Batman, ao menos em primeira instância. Se formos comparar o que Dodds usava com qualquer outro personagem encontraremos o Mestre dos Sonhos imediatamente, percebam: Dodds tinha sonhos premonitórios com os crimes; usava um sobretudo sempre que saia para as ações, usava uma máscara de gas para proteger sua identidade que foi magistralmente transformada por Gaiman no Elmo do Sonhar, ou Elmo de Ossos – aposto que agora você compreendeu porque ela tem aquele formato de crânio, olhos arredondados e aquela estranha tromba – e o “gran finale”, o motivo pelo qual Dodds usava esta máscara de gas era para proteger-se pois, ele prendia os criminosos lançando sobre eles um gas sonífero – e chegamos na famosa Algibeira de Sandman.

Brilhante não? Sempre que comparo os dois personagens inevitavelmente aplaudo Gaiman.

Fora isso, o pesonagem Wesley Dodds foi um dos criadores da Sociedade da Justiça da América e também fez parte do grupo All Star Squadron. Ambos foram grupos e ligas bastante conhecidos nos anos 40 dentro da editora.

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Uma das primeiras funções de Gaiman logo que contratado pela DC no início dos anos 80 foi revisar e tentar resgatar alguns personagens marginais da editora para utilizá-los em relançamentos que poderiam tornar-se clássicos na época. Quase como o que vemos agora, onde as grandes séries dos anos 80 estão sendo relançadas em capa dura ou edições completas para que voltem as bancas. Isso acontceu com o próprio Sandman mas hoje sabemos que é uma jogada de marketing pela grande procura que os quadrinhos tem. Nos anos 80, era uma ideia de resgate para tentar dar vida nova a personagens que já tiveram importância, que ainda tinham os direitos autorais da DC e que estavam perdidos em arquivos. Não se sabe ao certo com quantos personagens tentou-se fazer isso, mas fica claro para todos nós que com Sandman deu muito certo.

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Gaiman então revisou a mitologia do antigo personagem e atribuiu fatos novos a ela. Criou uma ideia mística sobre a origem de seus sonhos, atribuindo-os a Morpheus. Ele criou aqui o gancho inicial de sua série Sandman. Ele fez com que os sonhos de Dodds fossem mensagens enviadas pelo Mestre dos Sonhos enquanto ele esteve aprisionado no mundo desperto. Era como se Dodds fosse a mão de Sandman, combatendo crimes importantes ou defendendo pessoas que no mundo desperto teriam importância a Sandman. Com o sucesso deste “renascimento” a DC passou a publicar a série “Sandman: O Teatro do Mistério”, com aventuras antigas da Era de Ouro e Gaiman ganhou o direito de explorar o lado mítico que acabara de criar, podendo falar mais sobre Morpheus, o Mestre do Sonhar que auxiliava Dodds no combate ao crime. Surge aqui o Sandman como conhecemos e amamos. Nos Estados Unidos, “Sandman: O Teatro do Mistério”, teria durado então até o final dos anos 90, com várias histórias roteirizadas por Gaiman, mas desde o início da série “Sandman” em 1987, as aparições de Morpheus em “Teatro do Mistério” foram ficando mais e mais esparsas até seu desaparecimento. Nada mais justo pois um universo inteiro estava sendo criado especificamente para ele em outra série. E é o que amamos hoje, e para sempre.

teatro do misterio

Grande abraço a todos, excelente começo de semana e nos falaremos em breve!

Fontes, referências e paixões:

Sandman – Prelúdios e Noturnos.

Sandman – O Teatro do Mistério – # 53, agosto 1997.

Blog “72,7 Sintonia Perfeita” 

Sobre Carla Umbria

Carla é Turismóloga - calma, não é transmissível - agente de viagens e estudante de Física pela UFPR. Escreve para um blog sobre destinos chamado "Desfazendo a Mala" e também contos para o site "Recanto das Letras". Participou do livro "A Des - Construção da Música na Cultura Paranaense" com o artigo "Por que não Metal?" sobre o Movimento Heavy Metal no Paraná, dos anos 70 até 2000. Apaixonada por quadrinhos, música, astronomia e brócolis na manteiga é politeísta, cultuando Neil Gaiman, P. Craig Russel, Robert E Howard, Isaac Asimov, Bill Sienkiewicz e muitos além, contudo, somente acende velas para Carl Sagan as segundas e Moebius as sextas. Os deuses são muitos, velas são caras.

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  • Ricardo Mazo

    Embora não tenha achado a historia DE O TARANTULA magnifica, gostei do desenrolar e dos desenhos, traçado e cor. Estou atras das próximas.