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Os contos e as perturbações de Neil Gaiman em “Alerta de Risco”

As coletâneas de contos de Neil Gaiman são sempre um deleite para seus fãs. Alerta de Risco é a terceira e – como em Fumaça e Espelhos e em Coisas Frágeis – ele reúne, neste novo volume, seus textos espalhados por diversas publicações e explica, na introdução, por que escreveu ou como surgiu cada história.

“Também já fui uma folha em branco, esperando pela escrita. Foram as histórias que me ensinaram sobre as coisas e pessoas, e foram as histórias que apresentaram outros autores.”

Nesse momento, o leitor desvenda os intrincados meandros da imaginação de Gaiman. É quase como se estivéssemos em um bate-papo intimista, no qual ele confessa seus pequenos pecados, suas conquistas e frustrações – como da vez em que teve a nota de uma redação rebaixada porque o professor achou que ele havia copiado o texto por este ser “demasiadamente original”, dizendo que ele “com certeza foi copiado de algum lugar”. O escrito acabou se transformando em Invocação da Indiferença, que ganhou o prêmio Locus de melhor conto, para vingar o adolescente rebelde que habita a alma de Gaiman!

É ainda na introdução que vemos a razão de Neil Gaiman ser um dos autores mais influentes da atualidade: “E penso em nós, todo mundo, e nas máscaras que usamos, as máscaras atrás da quais nos escondemos e aquelas que revelamos”, filosofa o escritor. E continua: “Imagino as pessoas fingindo ser o que não são e descobrindo que os outros são muito mais e muito menos do que o papel que representam e do que a imaginação permite conceber. Então penso na necessidade de ajudar os outros, em como nos mascaramos para fazer isso e em como nos tornamos vulneráveis se tiramos a máscara…”

Os ‘alertas’ estão espalhados pelas histórias. Podemos vislumbrar a figura inconfundível do autor escrevendo seus textos “em um chalé numa floresta sombria” (de onde ele finalizou a edição, em 2014), cercado por monstros imaginários. “Se você entrar em cada história esperando que eu leve para um lugar sombrio, terá uma experiência peculiar”, declarou Gaiman em uma entrevista para o jornal O Estado de S. Paulo, falando sobre o livro.
E ele não nos decepciona com seus contos deliciosos. Há uma série de homenagens a seus ídolos. E, por que não dizer, os ídolos de todos nós! Em Caso de morte e mel ele fala sobre Sherlock Holmes – em quem admite ter se inspirado quando decidiu criar abelhas. O homem que esqueceu Ray Bradbury é uma emocionante homenagem; “uma carta de amor, um agradecimento e um presente de aniversário a um autor que me fez sonhar, que me ensinou a respeito das palavras e daquilo que podiam realizar e nunca me decepcionou enquanto leitor ou pessoa”. Hora nenhuma é sobre Doctor Who (de quem Gaiman é fã declarado) e foi escrito para o livro “Doctor Who: 12 Doutores, 12 histórias”. A volta do mago Duque branco é uma belíssima homenagem a seu grande herói David Bowie – a quem lamentou, quando da morte deste, nunca o ter encontrado pessoalmente.
Como não é possível comentar individualmente todos os contos, concluo dizendo que o último é inédito, foi escrito especialmente para este livro e se chama Cão negro. Quer mais? Ele retoma o personagem Baldur ‘Shadow’ Moon, de Deuses Americanos – de 2001 –, que veremos em série e em história em quadrinhos em breve! E finalizo com as palavras de mestre Gaiman:

“Agora temos que nos preocupar apenas com os outros livros e, é claro, com a vida, que é imensa e complicada e não dá nenhum alerta antes de nos ferir…”

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Ficha Técnica

Título original: Trigger Warning: short fictions and disturbances
Tradução: Augusto Calil
Páginas: 304
Editora: Intrínseca
Gênero: Ficção
Ano: 2016
Avaliação: Ótimo

Sobre Luciana Fátima

Luciana Fátima é escritora, fotógrafa, professora, tradutora, e faz uma porção de outras coisas. Ela se orgulha por seu livro (Delírio, Poesia e Morte – a solidão de Álvares de Azevedo) contar com a arte do mesmo artista [Kipper] que fez a fantástica capa de “Fumaça e Espelhos”, de Neil Gaiman.

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