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E Sandman fez 23 anos de Brasil …

“And if a double-decker bus

Crashes into us

To die by your side

Such a heavenly way to die

And if a ten-ton truck

Kills the both of us

To die by your side

Well, the pleasure and the privilege is mine”

The Smiths – There is a Light That Never Goes Out

Foi ouvindo esta música em alto e bom som no meu Walkman Sony de quatro pilhas (alguém aí ainda sabe o que é um Walkman?) que em fevereiro de 1990 eu conheci Sandman, numa banquinha de revistas em frente ao antigo CEFET-PR, no centro de Curitiba. Um encontro nada glamouroso, confesso, mas onde mais eu poderia encontrar o Mestre dos Sonhos se não no lugar onde os sonhos estão a venda? Ao menos para uma adolescente de 14 anos.

Na semana 24 de novembro de 2012 e perto do fim do mundo, soube através de uma postagem de Leandro Luigi Del Manto, editor chefe de Sandman pela extinta Editora Globo, que o primeiro lançamento da saga no Brasil com a clássica história Prelúdios & Noturnos completava 23 anos de idade. Me senti velha, confesso, mas ao mesmo tempo me deu uma vontade enorme de falar do mundo naquela época, ao menos falar dele como eu o via e como ele me via: Tênis preto, calça preta, camiseta preta com um enorme “A” inscrito em um círculo (não pergunte o que eu sabia ou achava de Anarquia naquela época, a resposta seria com certeza cretina) e uma imensa sensação de deslocamento.

Batman Messias Capa

Adolescentes normalmente não se enquadram em nenhum padrão social, eles são um padrão social a parte. Mas eu sentia como se realmente não existisse um lugar no mundo para mim, e acreditava que era esse olhar que as pessoas tinham para minha imagem, quando cruzavam comigo. Era calada, deslocada, imersa em meu próprio planetinha cheio de teoremas e suposições, e encontrava nos personagens tristes dos quadrinhos algo que se assemelhava ao meu momento. Conhecia grande parte dos super heróis da Marvel, tinha um carinho muito especial por Conan e Sonja, Manto e Adaga, Dr Estranho, Wolverine. Você dirá “realmente eram os mais estranhos” mas não parava aí: Mesmo com a DC em queda, eu não tinha deixado de acreditar no Batman e o colecionava pois, eu tinha comprado “O Messias” na ocasião dos 50 anos do personagem (1989) e não tinha assistido o pavoroso filme com Jack Nicholson no cinema – será que ele se orgulha daquilo no currículo? Eu escondo no meu que já vendi quadros holográficos da Santa Ceia – e enfim, meu negócio eram os personagens soturnos, ou como se diria hoje, cheios de “mimimi” e o cabeludo da banquinha, com uma camiseta velha do Hans Solo, sabia disso.Batman Messias Verso

Eis que no intervalo da aula eu entro na banquinha procurando a continuação de um dos “Contos de Batman” e ele me fala: Menina, você curte os personagens weird né? – atenção, Carla entendeu VEIRDE e pensou: Monstro do Pântano? Hulk? E respondeu com ar blasé: claro… Ainda bem que antes que eu pudesse falar que achava o Hulk melhor na série de tv, por que a musiquinha do final me emocionava, ele me interrompeu falando: “Você precisa ler isso então, chegaram em edições picadas, são do ano passado e vieram coisas perdidas, não tem ordem, mas a sequência é essa aqui, ao menos do que eu tenho” e me mostrou a revista inicial  do segundo  arco de Sandman chamada  “O Mestre dos Sonhos” ( para alguns as duas revistas que compõe o arco “Mestre dos Sonhos” são apenas entre -séries, que explicarei mais adiante ) e que conta a história da Rainha Nada, e Prelúdios & Noturnos, o primeiro arco de toda a série, faltando apenas a terceira revista. Perguntei “mas não tem mais Batman?” ele sorriu e falou “leva essa, vai por mim, amanhã você vai voltar e comprar tudo o que eu tenho”.

Ele tinha razão, mas que canalha!

Capa da edição número 9 de Sandman , Arco O Mestre dos Sonhos, em primeiro lançamento no Brasil datando de Novembro de 1989.

O Mestre dos Sonhos

Não sei se foi uma ironia do destino ou simplesmente o cabeludo era um cara que sabia vender, mas ele mostrou a revista que em minha opinião ainda é uma das três melhores de toda a série Sandman. “O Mestre dos Sonhos” fala de um amor impossível, uma mulher perdida em seu pequeno mundo que se apaixonava por um forasteiro de ar místico e olhos profundos; e sofria e morria por ele. Era tudo o que uma garota de ares tristes lembraria por toda a vida! Para quem lia Baudelaire e não chorava, eu achei aquilo lindo.

Entendam a profundidade adolescente da pessoa que vos escreve, naquela época: Eu lia Baudelaire ouvindo “Adagio” de Albinoni, me achando uma intelectual fora do meu tempo e não me emocionava. É, mas eu me debulhava de chorar quando Atreiu do filme História Sem Fim perdia seu cavalo no pântano ou quando a Jennifer Connely dançava As The World Falls Down com o David Bowie no filme Labirinto… Concluo que quem já foi adolescente um dia sabe que é bom manter distância desses bichos… E para quem me lê agora e ainda é adolescente deixo um ensinamento valioso: Come e lê gibi que passa!

Uma noção importante a fornecer  é referente a loucura da distribuição de quadrinhos no Brasil dos anos 90. Vejam, Sandman foi lançado em Novembro de 1989 mas as revistas chegaram ao Paraná picadas, com edições já bastante adiantadas do primeiro exemplar. Prelúdios & Noturnos começa a saga, sendo um arco com 07 revistas e “O Mestre dos Sonhos” são duas revistas a parte – chamadas então por alguns colecionadores de “entre séries”, revistas que contam histórias fechadas, com começo, meio e fim e que por certo terão ligação com parte da trama mais a frente – que vem logo na sequência do primeiro arco da série,  sendo  portanto o arco “O Mestre dos Sonhos” as oitava e nona revista. A que conta a história de Nada, em questão, é a nona. As séries chegavam todas misturadas, falhadas, era muito difícil colecionar… Preciso, entretanto, comentar que isso  não se aplicaria ao lançamento do personagem “Spawn” em 1993 pois ainda que ocorrendo na mesma época, esta revista se tornou a HQ com melhor distribuição nacional. ( vá a qualquer sebo que você encontrará váaaaarias – que piadinha infame! Vou perder alguns amigos mas creio que serão poucos ahahah)

O Mestre dos Sonhos

No dia seguinte voltei a banca e realmente comprei tudo o que encontrei de Sandman. Me lembro que escrevi algumas cartas à Editora Globo, pedindo os exemplares atrasados e que em certa ocasião eu consegui comprar em um sebo uma das revistas de Um Jogo de Você – quinto arco da série, com 7 exemplares – e duas semanas depois recebi o aviso de que a distribuidora mandaria as edições atrasadas. Acabei deixando de lado pois, não existia a cultura – justamente por que ainda não existia a demanda por Sandman no mercado – de comprar mais de um exemplar para revender.

Falando sobre exemplares: Nos anos 90 não existia o comércio de quadrinhos que vemos hoje, as revistas eram bem mais baratas e personagens agora consagrados naquela época eram “recém nascidos”. Sandman era um personagem novíssimo, ainda visto com certo desdém pela crítica pois ele era da DC Comics – que tinha tradição em personagens soturnos – mas ia muito além, psicologicamente, de tudo o que a editora já havia produzido. Poderia ter dado muito errado e talvez, se tivesse sido escrito em 2000, por exemplo, com a fé das pessoas no mundo se renovando devido a chegada do novo milênio,  tivesse incorrido num imenso desastre. Contudo, foi justamente o oposto. Ele se tornou um ícone não só para a minha geração como para outras que vieram na sequência e muito rapidamente nos anos 90 conquistou o mercado, sendo uma das HQ’s mais vendidas no Brasil durante toda a década. 

praça da paz celestialPercebam o cenário que vivíamos naquele tempo: Blocos econômicos surgindo, guerra fria acabando, muros, partidos caindo, pessoas enfrentando tanques de guerra em praça pública por um ideal (o rapaz chinês que enfrentou uma tropa de tanques na Praça da Paz Celestial pelo fim do Comunismo na China, o fez em 5 de junho de 1989 e lembro que assistir a isso no Jornal Nacional) e aqui no Brasil votaríamos para presidente pela primeira vez em mais de 20 anos, voltaríamos a ter aula de Filosofia na escola – e nossos professores não seriam presos por falar de Marx ou Schopenhauer – e muitos dos nossos parentes exilados fora do Brasil estavam sentindo total segurança para voltar para casa.

Ou seja, nosso mundo estava psicologicamente abalado e mudando muito rápido, tanto quanto nossos queridos personagens e por isso Sandman nos caía tão bem. Ouvir Smiths e Joy Division era tão bom, vestir preto com olhos pintados cantando Cities and Dust era falar da Europa ( salve Siouxssie, irmã mais velha de Sandman!) e colecionar quadrinhos era maravilhoso pois podíamos comprar o que quiséssemos nas bancas, nada mais era proibido. Mas, a distribuição tinha sido imensamente afetada, pelos longos anos de militarismo creio eu, e era uma droga ter que esperar para acabar de ler um arco todo.

Ainda assim, eu lembro, a espera valia cada minuto! Se eu tivesse uma máquina do tempo voltaria àquele dia, compraria todas as revistas ( duplicadas, triplicadas ) de Sandman que o cabeludo tinha, e contaria a ele que o George Lucas venderia a Lucas Films para a Disney em 2012 (eu tento mudar, mas continuo ruim ahaha)

O Mestre dos Sonhos

E foi assim que aconteceu… No mais, feliz aniversário de lançamento de nosso amado Sandman aqui no Brasil! Um abraço imenso as pessoas que fizeram minha vida mais feliz, como o já citado Leandro Luigi Del Manto – atualmente a frente da Devir Editora – que respondia com enorme paciência e carinho a seção dedicada aos leitores chamada “Cartas na Areia”, junto com o querido Sidney Gusman (atualmente na Maurício de Souza Produções, revolucionando a editora com a Grafic Novel “Magnetar”) e fica aqui o desejo de que o Mestre dos Sonhos, que fez parte da vida de outros balzaquianos como eu ainda venha a intrigar e fazer crescer muitos outros fãs.

Acima de qualquer coisa, obrigada Neil Gaiman, por tudo.

Sobre Carla Umbria

Carla é Turismóloga - calma, não é transmissível - agente de viagens e estudante de Física pela UFPR. Escreve para um blog sobre destinos chamado "Desfazendo a Mala" e também contos para o site "Recanto das Letras". Participou do livro "A Des - Construção da Música na Cultura Paranaense" com o artigo "Por que não Metal?" sobre o Movimento Heavy Metal no Paraná, dos anos 70 até 2000. Apaixonada por quadrinhos, música, astronomia e brócolis na manteiga é politeísta, cultuando Neil Gaiman, P. Craig Russel, Robert E Howard, Isaac Asimov, Bill Sienkiewicz e muitos além, contudo, somente acende velas para Carl Sagan as segundas e Moebius as sextas. Os deuses são muitos, velas são caras.

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