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Mr. Punch de Neil Gaiman e Dave McKean: É assim que se faz!

Publicado originalmente por Rodrigo Garrit em O Santuário

Sempre achei o termo “Graphic Novel” meio bestinha, e é mesmo. Mas esta edição luxuosa em capa dura merece todos os barangandans. Trata-se de um livro profundo e introspectivo, escrito por Neil “Sandman” Gaiman e ilustrado loucamente por Dave “Capas do Sandman” McKean.

Esse livro não vai agradar quem procura ação, violência ou adrenalina. Trata-se de algo que eu chamaria de “poema ilustrado”. A história é um flashback que remonta a infância do protagonista, quando precisou passar um período na casa dos seus avós quando sua mãe estava prestes a dar a luz à sua irmãzinha.

Em uma época onde tevês eram raridade, computadores tinham o tamanho de estantes e a internet era um delírio de ficção científica, as fontes de entretenimento vinham em formas mais simples, mas não menos fantásticas, como o teatro, os circos e os fliperamas (não desses de jogos eletrônicos, os fliperamas da época eram uma espécie de parque com cabines de caça-níqueis, salas de espelhos, cantoras vestidas de sereia e teatrinho de fantoches).

Durante toda a narrativa, somos constantemente surpreendidos pela presença marota de Mr. Punch, um bonequinho desses que você dá vida ao colocar sua mão por dentro deles. Quem nunca fez um desses usando um pé de meia? Mas embora tenha um caráter duvidoso, Mr. Punch rouba a cena todas as vezes que aparece. Seu carisma é tão grande, que não o condenamos quando mata sua amada Judy, quando convence o juiz a ser enforcado no seu lugar, ou quando ele joga o bebê pela janela (!) Na verdade ele nos arranca boas risadas com essas diabruras.

O estilo inconfundível de Neil Gaiman muito bem conhecido dos fãs de Sandman está impresso em cada página. As palavras parecem se encaixar como um quebra cabeças perfeito, e ao mesmo tempo que nos seduz com sua poesia, nos instiga a querer saber mais sobre os misteriosos personagens que aparecem.

Mr. Punch Mr. Gaiman

A forma lúdica como é apresentado o personagem Swatchell, o manipulador das marionetes, estabelecendo uma conexão sobrenatural entre personagem e intérprete, sugerindo que na verdade, é ele que é manipulado pelo Mr Punch[bb], e não o contrário, reforça ainda mais o cenário poético e delicioso arquitetado por Gaiman.

A arte é um show à parte. Dave McKean faz o que quer, mas faz com maestria. Mistura técnicas de colagem de fotos e gravuras com seu traço característico, que combina perfeitamente com o clima da história. As cenas em que retrata a cabeça do avô do menino como uma caricatura gigante de si mesmo, dando a conotação da loucura dele é impactante e divertidíssima.

Cada personagem do livro, por menor que seja, tem o seu universo particular, sua história. Seus dramas ficam nítidos, seja pelo texto incisivo de Gaiman ou  pela arte marcante de McKean.

Paralelamente as lembranças de infância, conta-se uma outra história mais pesada, a qual só irá reverberar anos depois em sua vida adulta, quando então ele reencontrará velhos parentes que lhe elucidarão as partes faltantes do quebra-cabeças. A história vai para o presente e volta em seguida para suas memórias de menino, e é fascinante as descobertas que ele faz quando fica mais velho, de coisas que eram complexas ou sujas demais para ele entender em seu tempo de criança.

Bom, o que mais eu posso dizer? É Neil Gaiman. 99% de chances de ser bom.

O acabamento da edição está de primeira, ponto para a Conrad Editora.  É pra guardar com orgulho na estante.

Juiz: -Agora, Mr. Punch, você vai ficar pendurado pelo pescoço até morrer… morrer… morrer!

Mr. Punch: – O QUÊ, MORREREI TRÊS VEZES?

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Sobre Felipe Goulart

Administrador do site e página no Facebook Neil Gaiman Brasil.

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