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Quando Neil Gaiman encontra Doctor Who

Neil Gaiman sempre foi fã de Doctor Who. Desde os três anos de idade, quando ainda estudava na escola da Sra. Pepper, em Portsmouth. Isso ele afirma na introdução de Alerta de Risco, ao falar sobre Hora Nenhuma, conto que escreveu a convite da editora Puffin Books para o livro Doctor Who: 12 Doutores, 12 Histórias.

A série é considerada pela crítica e pelo público como um dos melhores programas da televisão britânica e consta no Guinnes World Records como o seriado de ficção científica de mais longa duração no mundo. O primeiro episódio foi ao ar em 1963 e, após várias regenerações (como são chamadas as trocas do ator protagonista), Doctor Who continua arregimentando uma legião de fãs ao redor do mundo. É o próprio Gaiman quem explica, em poucas palavras, o personagem:

“O Doutor é um alienígena, um Senhor do Tempo, o último de sua raça, que viaja pelo tempo-espaço numa caixa azul com um interior muito maior do que parece por fora.”

Mas a conexão entre Neil Gaiman e Doctor Who não para na literatura. O autor, na nova geração da série, escreveu dois icônicos episódios e afirma que essa foi uma das coisas mais divertidas que ele já fez na vida. O primeiro, na sexta temporada, A Esposa do Doutor (The Doctor’s wife), com a transformação de sua nave espacial em forma de cabine azul – a TARDIS – em uma mulher; e o segundo, na sétima temporada, Pesadelo Prateado (Nightmare in silver), invocando os terríveis vilões Cybermen. Sobre este último, Neil Gaiman comenta:

“Este episódio é o retorno dos Cybermen. Eu tinha pavor, quando criança, dos Cybermen. Eles me assustavam de uma maneira que os Daleks nunca conseguiram.”

Nessa aventura, Gaiman situa os personagens no que parece ser uma base lunar abandonada, quando estavam à procura de Hedgewick’s World – o maior e melhor parque do mundo, que faz referência à Fantástica Fábrica de Chocolate. A confusão resulta em uma viagem cheia de surpresas, na qual Gaiman proporciona a Matt Smith uma sensacional atuação. “Acho que há coisas que eu poderia ter feito melhor, mas eu também acho que uma das coisas que eu queria fazer em Pesadelo Prateado era justamente mostrar ao público tudo o que Matt Smith pode fazer como ator”, disse o escritor. No episódio, o Doutor precisa (em um jogo de xadrez) travar uma batalha consigo mesmo, quando parte de seu cérebro é ‘absorvido’ pela tecnologia super avançada do Cyber-Planejador, que almeja controlar o planeta com um exército de três milhões de Cybermen. Mas, como sempre, tudo acaba bem e o Doutor vence no final.

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É no episódio A esposa do Doutor, contudo, que os fãs da saga se realizam. E os admiradores de Neil Gaiman reconhecem toda a sua genialidade! A inteligência aguçada dos diálogos só poderiam ter sido escritos por um grande fã da série, alguém que compreende intimamente a intrincada alma do Doutor; além, é claro, de ‘dar vida e personalidade’ a um dos mais importantes elementos da história, a TARDIS – acrônimo que contém a essência do seriado: tempo e dimensões relativas no espaço (do original em inglês, Time And Relative Dimensions In Space).

Quando eles são sugados para fora do universo, para um lugar nunca antes visitado – uma espécie de planeta que possui um vale de Tardis devoradas e se alimenta delas e de seus antigos donos –, a energia da TARDIS é drenada e aprisionada em um corpo feminino, possibilitando algo impensável até então, deliciosas conversas entre o Doutor e uma confusa TARDIS-mulher, chamada Idris, que tenta compreender o funcionamento de seu próprio corpo:

“Todas as pessoas são assim?”
“Assim como?”
“Tão maiores por dentro?”

O envolvimento entre o Doutor e sua ex-cabine-azul torna-se cada vez mais intenso, ambos demonstrando admiração mútua, apesar das controversas discussões bem ao estilo ‘marido-mulher’, quando enfim descobrem algo de extrema importância: como derrotar o vilão! Mas essa descoberta vem com a notícia de que o corpo humano utilizado pela TARDIS está se deteriorando – para tristeza de todos. Pouco antes do final épico, somos presenteados com esse diálogo que derrete o coração de qualquer Whovian (como são chamados os fãs de Doctor Who):

TARDIS: “Estive procurando por uma palavra. Uma palavra complicada, mas muito triste. Encontrei-a agora: VIVA. Estou viva!”

DOUTOR: “Viva não é triste.”

TARDIS: “É triste quando chega ao fim. Sempre estarei aqui. Mas foi neste momento que conseguimos conversar. E até isso chegou ao fim. Há algo que não cheguei a lhe dizer…”

DOUTOR: “Adeus?”

TARDIS: “Não, só queria dizer: Olá! Olá, Doutor! É um enorme prazer conhecer você… Eu amo você.”

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Na última cena, enquanto a TARDIS – em sua forma de cabine azul – flutua lentamente pelo universo, o Doutor externa uma angústia pertencente a todos nós, ao nos questionarmos sobre a existência de realidades alternativas, de viagens no tempo, de vida em outros planetas, ou de qualquer outra coisa que não se restrinja ao mundo concreto. Ele toca, carinhosamente, o painel de controle da TARDIS e pergunta: “Você está aí? Pode me ouvir?” Assim como nossas dúvidas continuam sem respostas, o Doutor também não recebe um retorno objetivo. No entanto, uma alavanca se move sozinha e a nave ruma para seu destino.

E a boa notícia para os fãs de Gaiman e de Doctor Who é que, a qualquer momento, uma das próximas aventuras do Doutor pode ser escrita por Neil Gaiman. Ele afirmou, em entrevista, que ainda quer escrever um episódio para o ator Peter Capaldi (12º Doutor). “Seria muito triste perder a oportunidade de escrever para o Doutor enquanto ele é um escocês mal-humorado! E eu ainda não fiz um episódio que se passa na Terra, e nem criei um monstro novo. Eu ainda não assustei ninguém. Eu adoraria fazer alguma coisa que fosse tão assustador que as pessoas quisessem se esconder atrás do sofá.”

Resta-nos aguardar… e torcer para que esse dia chegue logo!

Sobre Luciana Fátima

Luciana Fátima é escritora, fotógrafa, professora, tradutora, e faz uma porção de outras coisas. Ela se orgulha por seu livro (Delírio, Poesia e Morte – a solidão de Álvares de Azevedo) contar com a arte do mesmo artista [Kipper] que fez a fantástica capa de “Fumaça e Espelhos”, de Neil Gaiman.

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